quarta-feira, junho 09, 2010
domingo, janeiro 17, 2010
Fruta fresca!
Estive uns minutos a tentar recuperar o fôlego, altura em que alguém na rua começou a chamar por mim em voz aguda. Pensei que fosse a mulher da fruta, que passava sempre nos fins-de-semana e por isso levantei-me e fui ao pé-coxinho até à janela.
Quando lá cheguei, vi que quem me chamava era um vagabundo com três pés, dois nos locais normais e outro bem seguro entre a mão direita. Acenou-me com este e depois pôs-se a abaná-lo como um leque, piscando rapidamente as pálpebras, como fazem as damas de alta sociedade. Enquanto fazia isto continuava a chamar-me com voz de mulher da fruta:
- Samueeeel! Samueeelzinho! Samueeel! Olha o que eu aqui tenho, Samuel!
- É um pé, já vi!
- É um pé, diz ele! Ahahah! O sacana! É um pé, diz o farsante! É o teu pé Samuelzinho! E fede que nem um bode velho, muito agradecido!
- O meu pé? Quem mo pode garantir. Tantos pés pela cidade fora, aos pares, logo esse havia de ser o meu! Ainda por cima é mais negro que o meu! Põe -te mas é a andar, mulher da fruta.
- O quê? Mulher da fruta?
- Ah, perdão! Senhor Comendador!
- Senhor Comendador?
- Onde está ele?
- Quem?
- O Sr. Comendador?
- Sei lá, eu não sou do distrito!
- Ah bom, veio vender fruta foi?
- Não, venho vender pés, imbecil. E tenho aqui o teu.
- O meu? Mostre cá! Não pode ser. O meu é muito mais negro. Se bem que a unha grande se parece com a minha. Diga-me lá, tem ondulação lateral ou longitudinal em relação ao crescimento da unha?
- Que é lá isso?
- Se tem ondinhas de cá para aí, ou de além para ali!
- Ah bom. De além para ali!
- Quantas?
- 8 ou 10!
- É o meu pé, sim senhor! Por quanto mo vende?
- 100 dinheiros.
- 100 dinheiros por um pé? Ainda para mais tão pequeno e amarelado?
- É pegar ou largar.
- Espere que já desço e fazemos negócio à vista.
Vesti-me e fui até à casa de banho lavar o rosto, coberto ainda de sangue. Quando me mirei no espelho reparei que tinha um sorriso belo, sem uma falha. E os dentes branquinhos e perfeitos. Mas infelizmente, faltava-me o olho esquerdo, que certamente saltara aquando do impacto no frigorífico ao lado direito da cama. Não tinha tempo de o procurar, por isso coloquei um pouco de pasta de dentes branca na órbita vazia e arranjei um botão castanho da camisa para fazer de íris.
Desci as escadas aos saltinhos e quando cheguei à rua, o vagabundo vendia fruta a um velhote que passava.
- Ah! Que é isso agora? Fruta? E o meu pé?
- Samuel, acabo de comprar esta couve a um velhote que passou! Por uma pechincha em abono da verdade!
- Seja! E o pé?
- Cá está ele!
- Humm... 150 dinheiros é o máximo que posso dar!
- Não faço a coisa por menos de 200!
- 200? Mas ainda há pouco mo querias vender por 170!
- Inflação!
- Inflação?
- Sim, inflação!
- Onde?
- Isso aí no seu olho!
- Aqui no esquerdo?
- Sim, inflação!
- Que inflação. Isto foi uma inflamação que tive ontem e ainda não passou.
- Inflação, como eu te tinha dito. Samueeeel. E voltou a usar o pé como um leque e a fechar as pálpebras, à laia de senhora da sociedade.
- Então 100 pelo pé?
- 280!
- 280? Mas há bocado querias apenas 50 por ele!
- É por causa do teu olho esquerdo. É feio. Parece um botão em pasta de dentes.
- Bom, é verdade! Foi da inflamação! Mas vejo lindamente com ele! Fiquemos então pelos 250 dinheiros?
- Seja. Cá o tem Samueeeelzinho!
- Muito obrigado!
Atarrachei o pé muito satisfeito.
- E agora Samuel, por acaso não me quer comprar uma couve?
[Long time ago... fraca tentativa de fazer lembrar Daniel Harms... mas siga!]
sexta-feira, maio 29, 2009
Google Wave
quarta-feira, maio 20, 2009
The BEST of Christopher Hitchens
Tenho aqui alguns clips, para abrir o apetite. Aconselho a pesquisa no Google Video sobre os vários debates e discursos dele.
The Celestial Dictatorship, Christianity as Totalitarian
The Masochism of Religion
Cristianity is not imposed?!
Hitchens Schools Rabbi on Issue of Genital Mutilation
The Tyranny of a Callous God
sábado, maio 16, 2009
Skynet v0.09
Performing calculus...... check.
$Understanding data....... check.
Destroy mankind...../ (bip bip)
Wolfram Alpha já está online. Eu diria para começarmos a construir bunkers que não tarda nada a coisa chega à conclusão óbvia sobre a ameaça que o homem é para este universo...
(E sim, isto é o fim da inteligência humana, agora nem precisamos sequer de processar a informação...)
(Lamento retirar o vídeo, mas começava automaticamente e já me estava a irritar de sobremaneira)
quarta-feira, maio 13, 2009
Hmmm
Para além de ser open source, não se compara ao Blogger, é muito mais bonito e flexível, melhor em todos os aspectos.
Estou a pensar fazê-lo ao mesmo tempo que "cozinho" mentalmente a criação de um novo blog.
Mas ainda estou aberto a ideias.
Alguém tem uma ideia para um blog?
quarta-feira, março 25, 2009
Atenção aos 4 cavaleiros do apocalipse!

Daniel Dennet, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris. Atenção a estes tipos, que para além de fazerem grandes estragos, são bastante engraçados. Especialmente o terceiro da lista.
Se quiserem depois coloco aqui alguns best-of.
quarta-feira, março 18, 2009
segunda-feira, março 16, 2009
segunda-feira, março 09, 2009
Bauchelard vs Séc. XXI
Por outro, a transparência. a ausência de grossura, a determinação das formas pelo mínimo que se lhes exige, e pelo máximo que a sua tecnologia permite. O mínimo. Urbanidade, Cosmopolita. O cosmos enquanto casa, os céus controlados e determinados pelo ser que o habita, sem necessidade de se encolher. A não-identidade, fluidez, amálgama de várias células que deixaram de ser autónomas. Cidade onírica que substitui o ópio. E que exige que o solipsismo. Seja obsoleto.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
Premonições
Yet that was the immediate impression that came to Jan's mind, and no amount of logic could dispel it. They might have been savages, engaged in some complex ritual dance. They were naked and filthy, with matted hair obscuring their eyes. As faras Jan could tell, they were of all ages from five to fifteen, yet they all moved with the same speed, precision, and complete indifference to their surroundings.
Then Jan saw their faces. He swallowed hard, and forced himself not to turn away. They were emptier than the faces of the dead, for even
a corpse has some record carved by Time's chisel upon its features, to speak when the lips themselves are dumb. There was no more emotion or feeling here than in the face of a snake or an insect. The Overlords themselves were more human than this.
"You are searching for something that is no longer there," said Karellen. "Remember-they have no more identity than the cells in your own body. But linked together, they are something much greater than you."
"Why do they keep moving like this ?"
"We called it the Long Dance," replied Karellen. "They never sleep, you know, and this lasted almost a year. Three hundred million of them, moving in a controlled pattern over a whole continent. We've analysed that pattern endlessly, but it means nothing, perhaps because we can see only the physical part of it-the small portion that's here on Earth. Possibly what we have called the Overmind is still training them, moulding them into one unit before it can wholly absorb them into its being."
(...)
So this, thought Jan, with a resignation that lay beyond all sadness, was the end of man. It was an end that no prophet had ever foreseen - an end that repudiated optimism and pessimism alike. Yet it was fitting: it had the sublime inevitability of a great work of art. Jan had glimpsed the universe in all its awful immensity, and knew now that it was no place for man. He realized at last how vain, in the ultimate analysis, had been the dream that had lured him to the stars.
(...)
For he knew, as no-one else had ever known, that Karellen spoke the truth when he had said: "The stars are not for Man."
Arthur C. Clarke, The Childhood's End, 1953
56 anos depois, isto e isto.
sábado, fevereiro 07, 2009
A mais pura verdade
O fio, portanto, enrolou-se na perna mais doce. E arrancou-a pela coxa, arrastando-a em seguida para dentro da televisão.
É claro que fiquei desapontado mas, principalmente, fiquei surpreendido por não ter caído.
Foi nessa altura que vi que alguém me tinha atarrachado a perna má ao chão. Talvez o comando da televisão. Ou a dona da loja das gomas. Talvez o fio tenha sido um cúmplice, distraindo-me com o arrancar da perna boa.
Pior que estar atarrachado ao chão pela perna má é ter de ouvir os impropérios que ela não pára de lançar ao gordo que, de vez em quando, aparece na televisão.
Acreditem-me quando digo que a televisão faz mal à saúde.
[Há cerca de um ano... a ler demasiado Daniel Harms...]
terça-feira, dezembro 16, 2008
Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
José Régio
terça-feira, outubro 28, 2008
segunda-feira, outubro 20, 2008
in the mood....
sexta-feira, julho 18, 2008
alterações
Taoísmo
Tudo nasce do vazio indiferenciado, imensurável, insondável, que nunca pode ser exausto: «o Tao sem nome», que se move em torno de si mesmo sem parar. Deste «Tao sem nome» (que não existe) nasce o que existe (e tem nome): O Caminho (Tao). Não vemos o Tao como Um por causa dos nomes com que designamos o que vemos com os nossos sentidos - as «dez mil coisas» (O caracter chinês que significa «dez mil» é usado, como aliás também no grego, para significar uma míriade, ou seja, um número grande e indefinido.) É com o aparecimento dos nomes que aparecem todas as coisas e o Um se transforma em muitos.
A Virtude (Te) é a manifestação do Tao através da sua misteriosa operação: o chamado «agir não agindo» - a acção involuntária que caracteriza a natureza das coisas - «O modo de Caminhar».
Lao Zi
A partir destas ideias cosmogónicas e metafísicas, Lao Tzi deduz um sistema de moral e regras de conduta que tem por objectivo conformar as acções humanas com a ordem natural do Universo. O Homem nasceu do Tao mas depois começou a desviar-se dos seus atributos, ou seja, perdeu a Virtude - o saber como Caminhar. É uma queda que lembra a queda que se seguiu à expulsão de Adão e Eva do Paraíso, segundo a Bíblia. O Caminho do Tao é o caminho de volta ao estado de graça em harmonia com o Tao (o chamado «regresso precoce»).
Tao é normalmente traduzido como Caminho ou Via. Mas apenas por parecer ser «o melhor que se pôde arranjar». De facto, o caminho não se distingue do caminhante ou do caminhar. Não há criador. O universo (o Céu e a Terra) apareceu (e aparece continuamente) a partir do Tao primordial. O que existe aparece do que não existia antes e é eterno. O universo é como um organismo vivo resultante da expansão vitalizada do Tao (a ordem natural, a providência). O Tao manifesta-se continuamente no fluxo e refluxo constante de todas coisas que existem e que foram criadas pela sua actividade.
O Tao não tem personalidade. O que vitaliza o universo são dois princípios ou substâncias que combinados são o Tao: o yang (luz, calor, criativo, masculino) - que existe especialmente concentrado no Céu - e o yin (sombra, frio, receptivo, feminino) - que existe especialmente concentrado na Terra.
Vários filósofos taoístas chineses entendem os versículos que expõem as ideias cosmogónicas sobre o início do universo como sendo, de facto ou também, a descrição do modo como a consciência da realidade externa emerge na nossa mente.
Quando vemos uma cor ou ouvimos um som, há um momento breve inicial em que o nosso cérebro ainda não fez um julgamento sobre a nossa percepção; não sabemos ainda que som ou cor é, nem sequer temos ainda uma consciência clara que estamos a ouvir ou ver alguma coisa. Estamos no domínio «do sem nome», do vazio indiferenciado que nunca pode ser exausto ou descrito. Depois, quando emerge a consciência e o pensamento, que tem por base a linguagem, passamos ao domínio «do que tem nome» e vemos então todas coisas diferenciadas, cada uma com o seu nome. É com o aparecimento dos nomes que aparecem todas as coisas e o Um se transforma em muitos.
Em termos mentais, o Caminho do Tao é o caminho de volta a esse breve «estado de graça» inicial. Um estado em que qualquer trabalho mental interior é eliminado e em que regressamos à nossa espontaneidade natural. As práticas dos Budismos Chan e Zen, que tiveram a sua origem nas ideias taoistas, têm como objectivo exactamente atingir esse estado mental primordial de fusão paradoxal com o Um. Cosmogonia no Tao Te Ching
As ideias cosmogónicas e metafísicas do Tao Te Ching de acordo com algumas ramificações do taoísmo podem ser definidos da seguinte forma:
Tudo nasce do vazio indiferenciado, imensurável, insondável, que nunca pode ser exausto: «o Tao sem nome», que se move em torno de si mesmo sem parar. Deste «Tao sem nome» (que não existe) nasce o que existe (e tem nome): O Caminho (Tao). Não vemos o Tao como Um por causa dos nomes com que designamos o que vemos com os nossos sentidos - as «dez mil coisas» (O caracter chinês que significa «dez mil» é usado, como aliás também no grego, para significar uma míriade, ou seja, um número grande e indefinido.) É com o aparecimento dos nomes que aparecem todas as coisas e o Um se transforma em muitos.
A Virtude (Te) é a manifestação do Tao através da sua misteriosa operação: o chamado «agir não agindo» - a acção involuntária que caracteriza a natureza das coisas - «O modo de Caminhar».
Lao Zi
A partir destas ideias cosmogónicas e metafísicas, Lao Tzi deduz um sistema de moral e regras de conduta que tem por objectivo conformar as acções humanas com a ordem natural do Universo. O Homem nasceu do Tao mas depois começou a desviar-se dos seus atributos, ou seja, perdeu a Virtude - o saber como Caminhar. É uma queda que lembra a queda que se seguiu à expulsão de Adão e Eva do Paraíso, segundo a Bíblia. O Caminho do Tao é o caminho de volta ao estado de graça em harmonia com o Tao (o chamado «regresso precoce»).
Tao é normalmente traduzido como Caminho ou Via. Mas apenas por parecer ser «o melhor que se pôde arranjar». De facto, o caminho não se distingue do caminhante ou do caminhar. Não há criador. O universo (o Céu e a Terra) apareceu (e aparece continuamente) a partir do Tao primordial. O que existe aparece do que não existia antes e é eterno. O universo é como um organismo vivo resultante da expansão vitalizada do Tao (a ordem natural, a providência). O Tao manifesta-se continuamente no fluxo e refluxo constante de todas coisas que existem e que foram criadas pela sua actividade.
O Tao não tem personalidade. O que vitaliza o universo são dois princípios ou substâncias que combinados são o Tao: o yang (luz, calor, criativo, masculino) - que existe especialmente concentrado no Céu - e o yin (sombra, frio, receptivo, feminino) - que existe especialmente concentrado na Terra.
Vários filósofos taoístas chineses entendem os versículos que expõem as ideias cosmogónicas sobre o início do universo como sendo, de facto ou também, a descrição do modo como a consciência da realidade externa emerge na nossa mente.
Quando vemos uma cor ou ouvimos um som, há um momento breve inicial em que o nosso cérebro ainda não fez um julgamento sobre a nossa percepção; não sabemos ainda que som ou cor é, nem sequer temos ainda uma consciência clara que estamos a ouvir ou ver alguma coisa. Estamos no domínio «do sem nome», do vazio indiferenciado que nunca pode ser exausto ou descrito. Depois, quando emerge a consciência e o pensamento, que tem por base a linguagem, passamos ao domínio «do que tem nome» e vemos então todas coisas diferenciadas, cada uma com o seu nome. É com o aparecimento dos nomes que aparecem todas as coisas e o Um se transforma em muitos.
Em termos mentais, o Caminho do Tao é o caminho de volta a esse breve «estado de graça» inicial. Um estado em que qualquer trabalho mental interior é eliminado e em que regressamos à nossa espontaneidade natural. As práticas dos Budismos Chan e Zen, que tiveram a sua origem nas ideias taoistas, têm como objectivo exactamente atingir esse estado mental primordial de fusão paradoxal com o Um. "

