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quarta-feira, maio 20, 2009

The BEST of Christopher Hitchens

Christopher é uma daquelas pessoas que dá gozo ouvir. Brilhante, inteligente, eloquente e bastante culto, a sua crítica à religião é tão acérrima quanto incisiva, e por vezes extraordinariamente cómica. Para mim, o "João Mourinho" da retórica de debate. (Fez-me pensar outra vez se não estaria errado na questão da guerra do Iraque, a única pessoa a conseguir esse feito)

Tenho aqui alguns clips, para abrir o apetite. Aconselho a pesquisa no Google Video sobre os vários debates e discursos dele.

The Celestial Dictatorship, Christianity as Totalitarian


The Masochism of Religion


Cristianity is not imposed?!


Hitchens Schools Rabbi on Issue of Genital Mutilation


The Tyranny of a Callous God

terça-feira, dezembro 16, 2008

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 
Estendendo-me os braços, e seguros 
De que seria bom que eu os ouvisse 
Quando me dizem: "vem por aqui!" 
Eu olho-os com olhos lassos, 
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 
E cruzo os braços, 
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta: 
Criar desumanidade! 
Não acompanhar ninguém. 
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde 
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 
Redemoinhar aos ventos, 
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi 
Só para desflorar florestas virgens, 
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós 
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 
Para eu derrubar os meus obstáculos?... 
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 
E vós amais o que é fácil! 
Eu amo o Longe e a Miragem, 
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas, 
Tendes jardins, tendes canteiros, 
Tendes pátria, tendes tectos, 
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 
Eu tenho a minha Loucura ! 
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. 
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 
Mas eu, que nunca principio nem acabo, 
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! 
Ninguém me peça definições! 
Ninguém me diga: "vem por aqui"! 
A minha vida é um vendaval que se soltou. 
É uma onda que se alevantou. 
É um átomo a mais que se animou... 
Não sei por onde vou, 
Não sei para onde vou 
- Sei que não vou por aí!

José Régio


segunda-feira, outubro 15, 2007

Parem de pensar! Divirtam-se! (o que ganham em pensar tanto??)

"A rapariga? Uma bomba de explosão retardada. A família tinha-lhe deformado o subconsciente, sem dúvida alguma. Dei por isso ao consultar os seus boletins de escola. Não queria saber o como, mas o porquê das coisas. O que pode ser muito incómodo. A gente interroga-se sobre o porquê das coisas e, se se insiste, podemo-nos tornar muito infelizes. A pobrezinha está morta, e foi o melhor que lhe podia ter acontecido

(...)

É a fonte de todos os tormentos. Todo o homem capaz de desmontar um écran de televisão e de o tornar a montar - e, hoje, quase todos eles são capazes - é bem mais feliz que aquele que tenta medir, experimentar, pôr em equação o Universo, o que não pode ser feito sem que o homem tome consciência da sua inferioridade e da sua solidão. Eu sei-o. Experimentei. Tretas! Conclusão: agarremo-nos aos clubes, às reuniões. aos acrobatas, aos prestidgitadores, quebra-cabeças, carros a reacção, motogiro-planos, ao sexo e à heroína, tudo o que não obrigue senão a reflexos automáticos. Se a peça é má, se o filme não tem sentido, tomemos uma dose maciça de teremina, Considero-me sensível ao espectáculo desde que se trate apenas de uma reacção táctil às vibrações. Mas estou-me nas tintas e tudo o que desejo é um sólido passatempo.

(...)

O importante para ti, Montag, é lembrares-te que somos alegres foliões, tu, eu e os outros. Fazemos frente à maré daqueles que querem mergulhar o mundo na desolação, suscitando o conflito entre a teoria e o pensamento. Aguentemos. Não deixemos a torrente de melancolia e da triste filosofia afogar o nosso mundo. Contamos contigo. Não creio que dês conta da tua importância, da nossa importância para proteger o optimismo do nosso mundo actual"

in Fahrenheit 451; BRADBURY, Ray

segunda-feira, outubro 08, 2007

a pedra....

"Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
– Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? —pergunta Kublai Khan.
– A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra —responde Marco—, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
– Por que falar em pedras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
– Sem pedras, o arco não existe."


Italo Calvino - Cidades Invisíveis

sexta-feira, setembro 28, 2007

Proverbio Arabe

اتق الأحمق أن تصحبه إنما الأحمق كالثوب الخلق كلما رقعت منه جانبا صفقته الريح وهنا فانخرق

"Esteja atento ao idiota, pois ele é como um velho vestido. Sempre que remendares, o vento voltará a rasgar."

terça-feira, setembro 11, 2007

Dois minutos de ódio



Mais um instante, e um guincho horrendo, áspero, como de uma máquina monstruosa funcionando sem óleo, saiu do grande televisor. Era um barulho de ranger os dentes e arrepiar os cabelos da nuca. O ódio começara.


Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Aqui e ali houve assobios entre o público. A rapariga loira emitiu um uivo misto de medo e repugnância. Goldstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava) fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio Grande Irmão, tendo depois se dedicado a actividades contrarrevolucionárias, sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa dos Dois Minutos de ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central quotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. Todos os subsequentes crimes contra o Partido, todas as traições, actos de sabotagem, heresias, desvios, provinham directamente dos seus ensinamentos. Nalguma parte do mundo ele continuava vivo e planeando as suas conspirações: talvez no além-mar, sob proteção dos seus patrões estrangeiros; talvez até mesmo - de vez em quando corria o boato - nalgum esconderijo na própria Oceania.

(...)


No mesmo momento, porém, arrancando um fundo suspiro de alívio de todos, a figura hostil fundiu-se na fisionomia do Grande Irmão, de cabelos e bigodes negros, cheio de força e de misteriosa calma, e tão vasta que tomava quase toda a tela. Ninguém ouviu o que o Grande Irmão disse. Eram apenas palavras de incitamento, o tipo de palavras que se pronunciam no calor do combate, palavras que não se distinguem individualmente mas que restauram a confiança pelo facto de serem ditas. Então o rosto do Grande Irmão desapareceu de novo e no seu lugar apareceram as três divisas do Partido, em maiúsculas, em negrito: GUERRA É PAZ; LIBERDADE É ESCRAVIDÃO; IGNORÂNCIA É FORÇA


in 1984, George Orwell

terça-feira, setembro 04, 2007

Lasciate ogni speranza, voi ch'intrate.

"Por mim se vai à cidade dolorosa; por mim se vai às penas eternas; por mim se vai junto da gente perdida. A justiça moveu o meu supremo autor fizeram-me a divina potestade, a suma sapiência e o amor primeiro (o pai, o filho e o espirito santo). Antes de mim coisa nenhuma foi criada. A não ser o eterno, e eternamente existirei: vós que entrais, abandonai toda a esperança."

Estas palavras sombrias vi escritas sobre uma porta e disse "meu mestre, não apreendo o seu significado" E ele, como homem clarividente, assim me respondeu "deve aqui deixar-se todo o receio; aqui deve morrer toda a baixeza. Chegámos ao lugar onde te disse q verias a gente condenada que o bem do espírito perdeu." E depois de sobre a minha pôr a sua mão, com o rosto alegre, que me reconfortou, introduziu-me nas coisas secretas."

In :
A divina comédia, O inferno, inicio do canto III, Dante Alighieri

segunda-feira, janeiro 15, 2007

"Deus, Pátria, Família".

“Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai ás vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos”

António de Oliveira Salazar


mas será uma forma assim tão errada de educar os nossos filhos? + d 30 anos depois a resposta ainda ñ é clara...

quarta-feira, maio 03, 2006

Pensamento do dia

"Aquele que é activo como uma abelha, forte como um touro, trabalha que nem um cavalo e que ao fim da tarde se sente cansado que nem um cão deveria consultar um veterinário porque é bem possível que seja burro."

Anónimo

segunda-feira, abril 17, 2006

Pensamento do dia

"Tudo aquilo que algum Idiota diz que é Urgente, é algo que algum Imbecil não fez em Tempo Útil e querem que você, o Otário, se desenrasque para o fazer em Tempo Recorde!"
Anónimo

quarta-feira, agosto 31, 2005

estratégia

"Quando lhe atirarem uma pedra,faça dela um degrau e suba... Só depois, quando tiver uma visão plena de toda a área, pegue noutra pedra, aponte bem e acerte no crânio do filho da puta ke lhe atirou a primeira."

sábado, maio 07, 2005

Faith

Faith is not being sure. It is not being sure, but betting with your last cent... Faith is not a series of gilt-edged propositions that you sit down to figure out, and if you follow all the logic and accept all the conclusions, then you have it. It is crumpling and throwing away everything, proposition by proposition, until nothing is left, and then writing a new proposition, your very own, to throw in the teeth of despair... Faith is not making religious-sounding noises in the daytime. It is asking your inmost self questions at night and then getting up and going to work... Faith is thinking thoughts and singing songs and making poems in the lap of death.
Mary Jean Irion, 1970

sexta-feira, abril 22, 2005

Mai nada!

«Estamos a mover-nos em direcção a uma ditadura do relativismo na qual nada é dado como certo e em que se dá primazia ao ego e aos desejos pessoais de cada um.

Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, é com frequência taxada como fundamentalista. No entanto, o relativismo, é decidir e desejar chegar aqui ou alí por qualquer vento de doutrina, parece ser a única atitude à altura dos tempos modernos»

Cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI.

Subscrevo!

quinta-feira, março 24, 2005

Laranjas

Se tens 1 laranja e trocas com outra pessoa que tb tem 1 laranja ficas com uma laranja.

Se tens uma ideia e trocas com outra pessoa que tb tem uma ideia ficas com 2 ideias

Nietzche

domingo, janeiro 16, 2005

José Gil

, filósofo, considerado pela "Nouvel Observateur" como um dos "25 grandes pensadores de todo o mundo". Ouçamos o que nos tem para dizer...

Depois da leitura do seu livro, "Portugal, Hoje - O medo de existir" é impossível não se ficar deprimido - "Hesitei muito antes de o publicar. Decidi fazê-lo, porque acho que estas coisas devem-se dizer publicamente..."

Em Portugal a inveja não é um sentimento, é um sistema

"... os acontecimentos não influenciam a nossa vida, é como se não acontecessem. Por exemplo, quando uma pessoa ama, esse sentimento não afecta a outra pessoa, objecto do amor. Quando acabamos de ver um espectáculo, não falamos sobre ele. Quando muito, dizemos que gostámos ou não gostámos, mais nada. Não tem nenhum efeito nas nossas vidas, não se inscreve nelas, não as transforma. Ainda outro exemplo: o primeiro-ministro, Santana Lopes, classificou a dissolução da Assembleia da República pelo Presidente como "enigmática". Não disse que era incorrecta ou injusta, mas "enigmática", o que é a forma mais eficaz de a transformar em não-acontecimento."

E, não tendo acontecido, ninguém é responsável
"Exactamente. Pode-se continuar como se nada se tivesse passado. Os acontecimentos não se inscrevem em nós, nem nas nossas vidas, nem nós nos inscrevemos na História. Por isso, em Portugal nada acontece."

Isso vem de onde?
"Do medo. E da falta da ideia de futuro. Vivemos num presente que se perpetua."
(...)
"Nós temos uma pobreza enorme de expressão em relação à nossa existência."

Não pode sentir, porque não o pode exprimir?
"Sim. A expressão abre para o fundo, não apenas para fora.Mas nós estamos agarrados a um texto e não temos forças para sair dele."
"É o texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto(...) Temos um texto que nos diz o que podemos viver.

É o medo que nos impede de rasgar esse texto?
"Nós temos medo de experimentar. Porque temos medo do que irão dizer de nós. Partimos sempre do princípio de que o que vão dizer é negativo, desvalorizante.(...) Isso cria logo um medo que nos paralisa. Faz com que tenhamos prudência. Bom senso.

Mas a prudência e o bom senso poderiam ser atitudes positivas, para nos guiarem na acção...
"Qual acção? A prudência paralisa a acção."(...)
"A verdadeira prudência seria uma estratégia para medir e modular a acção, à medida que ela se desenrola. Mas nós não queremos é agir. Porque a sociedade portuguesa, ao contrário de outras, é fechada, não tem canais de ar, respirações possíveis. É uma sociedade suavemente paranóica. As pessoas estão demasiado conscientes de si próprias, o que é um horror. Conscientes da imagem que possam produzir, da sua presença como imagem nos outros. Isso é paralisante."
"É uma obsessão. Estamos sempre a falar da auto-estima, esse termo horroroso."

O que há de errado com a auto-estima?
Essa ideia reflexiva, de nos amarmos a nós próprios... Em vez de estarmos virados para fora, para os outros, para o mundo. Só nos podermos afirmar agindo, exprimindo-nos - não voltando.nos para a autocomplacência. Tudo o que é válido vem "de fora".Nós ainda temos essa ideia de que é preciso começar por uma transformação interior... Mas, em Portugal, não existe um "fora".

Isso que dizer que não existe um espaço público?
"Não, não existe. O salazarismo extinguiu-o.(...) Toda a nossa expressão individual , social, passou a reduzir-se ao discurso político. E no espaço público instalou-se em força um dispositivo que ocupou o lugar todo: a televisão, e os "media" em geral.

Os "media" não são espaço público? Funcionam em circuito fechado?
"(...)Têm uma acção de absorção. Só se existe se se aparecer na televisão. Mas estar e aparecer na televisão não é a mesma coisa do que viver a vida, na materialidade das ruas e do tempo."(...)
"Com certeza que nã se vai voltar atrás. Mas é preciso recuperar aquilo que nos é sugado por esse espaço de imagem e que é a vida dos corpos. Os acontecimentos da existência, no que têm de invenção. Na televisão tudo está formatado, não há imprevisto, encontro. O acontecimento é o resultado de um encontro. Mas nós temos medo do acontecimento. Medo da mudança, medo do futuro, medo do julgamento dos outros, medo de não sermos capazes. Medo de não estar à altura do acontecimento."
(...)
"Uma vez assisti a uma entrevista com o jovem físico português, João Magueijo, que vive em Inglaterra. A repórter perguntava-lhe: "Você trabalha com matemática, não em laboratórios. Não podia ter descoberto essas teorias em Portugal?" E ele respondeu imediatamente: "De maneira nenhuma. Sabe porquê? Por causa da intensidade das trocas de pensamento em que eu vivo quotidianamente. É isso que me faz pensar".

A nossa incapacidade vem do medo...
"O mecanismo da inveja (...). Imagine que você chega ao pé dos seus colegas e diz: "Fiz uma reportagem extraordinária!" E não está a falar por vaidade, mas objectivamente. Mas logo o tipo que está ao seu lado diz: "Ai sim? Pois muito bem." E com este tom introduz em si um afecto inconsciente que o vai paralisar."
"A inveja é mais do que um sentimento, é um sistema. E não é apenas individual: criam-se grupos de inveja. Várias pessoas manifestam-se simultaneamente contra a sua iniciativa. Cria-se um ambiente de inveja."
"Vivemos reconhecendo-nos como irmãos na desgraça."
"Se você faz alguma coisa de forte, isso deveria ser um estímulo para mim, para fazer algo também forte. Mas não. Vê-lo forte diminui-me a mim. Vê-lo com intensidade, com iniciativa, faz-me pensar, por causa da imagem que tenho de mim, na minha pobre condição, em que não faço nada. E faço tudo para destruir a sua iniciativa, para que eu possa viver. Você sufoca-me com a sua energia. (...) E o resultado é que estamos todos sem energia."


O original era muito grande. Ficam estes pequenos excertos.

in Pública nº 451, "Ideias fortes", entrevista a José Gil, pp 5-9

quarta-feira, dezembro 22, 2004

1984

... e as arrumações continuam LOL

Agora um excerto que eu cuidadosamente guardei de um livro terrífico, da autoria de George Orwell. É o clímax do livro. Winston está a ser interrogado pelo "Partido" por O'Brien, num processo de cura.

O'Brien "-...O passado existe concretamente, no espaço? Existe algures um lugar, um mundo de objectos sólidos, onde o passado esteja ainda a acontecer?
Winston "- Não.
"- Então onde é que o passado existe, se é que existe?
"- Nos arquivos. Está registado, por escrito.
"- Nos arquivos. E mais?
"- Na memória. Na memória dos homens.
"- Na memória. Ora muito bem. Nós, o Partido, controlamos todos os arquivos e controlamos todas as memórias. Portanto controlamos o passado, ou não?
"- Mas como é que podem impedir as pessoas de se lembrarem das coisas! - exclamou Winston (...) - isso não depende da vontade. É exterior a nós próprios. Como é que se pode controlar a memória? Vocês não controlaram a minha!
O'Brien voltou aos seus modos ríspidos(...)
"- Enganas-te - disse - quem não a controlou foste tu. E foi isso que te trouxe até aqui. Estás aqui porque te falta humildade, auto-disciplina. Nunca quiseste aceitar o acto de submissão, que é o preço da saúde mental. Preferiste ser louco, uma minoria de um só. Apenas a mente disciplinada granjeia a realidade, Winston. Julgas que a realidade é uma coisa objectiva, externa, que existe por si própria. Julgas também que a natureza da realidade é evidente. Quando, numa das tuas alucinações, visionas alguma coisa, é exterior. A realidade existe no espírito humano, e em mais parte nenhuma. Não no espírito individual, que pode cometer erros, e que para todos os efeitos é perecível: só existe no espírito do Partido, colectivo e imortal. O que o Partido consagrar como verdade, é verdade. Impossível ver a realidade excepto através dos olhos do Partido. É isso que tens de reaprender, Winston(...).
"- Lembras-te - prosseguiu - de escreveres no teu diário que «Liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro»?
"- Lembro-me - confirmou Winston.
"O'Brien ergueu a mão esquerda, com a palma voltada para si, o polegar escondido e os outros quatro dedos esticados.
"- Quantos dedos tenho aqui, Winston?
"- Quatro.
"- E se o Partido disser que não são quatro mas cinco, quantos são?»

In ORWELL, George, "Mil novecentos e oitenta e quatro"; 4ª edição, Antígona, pp. 249-250

Old quotes

Desculpem lá caros leitores, o despejar de coisas, mas é que estou a arrumar o porão (sim é verdade!) e encontrei uns pequenos grandes tesouros de escrita, já de há alguns anos. Dou-lhes uma sequência para não serem tão secantes. Interessante, ver o passado...

é sobre a verdade e outras mentiras do género:

"A totalidade é a não verdade"
Adorno

"Também o pensamento complexo é animado por uma tensão permanente entre a aspiraão a um saber não parcelar, não fechado, não redutor e o reconhecimento do inacabamento, da incompletude de todo o conhecimento"

"Esta tensão animou toda a minha vida"

"Se houvesse uma única verdade, seria impossível fazer cem quadros sobre o mesmo tema"
"A arte é uma mentira"
Pablo Picasso

"... os que pretendem deter a verdade são os mesmos que deixaram de a procurar. A cerdade procura-se não se possui. (...) A felicidade não consiste em beber da nascente, mas em abeirar-se dela"

"A patologia da razão é a racionalização que encerra um sistema de ideias coerente, mas parcial e unilateral, e que não sabe nem que uma parte do real é irracionalizável. Nem que a racionalidade se encarrega de dialogar com o irracionalizável"

1. Factor religioso:

"... é aquela natureza original do homem pela qual ele se exprime de forma total em perguntas "últimas", procurando o porquê último da existência em todos os aspectos da vida e em todas as suas implicações."

"... expressão adequada daquele nível da natureza em que esta se torna consciente do real (...); e é a este nível que a natureza pode dizer "eu", reflectindo-se nesta palavra potencialmente toda a realidade. São Tomás dizia: (...) a alma é de algum modo tudo"

"a palavra DEUS define o objecto próprio deste desejo último do homem"

"Deus (...) é uma presença que domina empre o horizonte humano, mas situa-se, no entanto, sempre para além desse mesmo horizonte"

"Esta imperecível situação de desproporção e de impossibilidade de atingir facilita o surgimento na consciência da ideia de mistério"

2. Vertiginosa condição humana
"Aquele «Deus», aquela realidade pela qual em última análise vale a pena viver, como vimos, é aquilo de que ultimamente a realidade é feita"

"... é um «x» em última análise incompreensível e que não pode ser encontrado na capacidade de memória da razão. Está fora. A razão no seu vértice pode chegar a apreender-lhe a existência, mas, uma vez atingido esse vértice, é como se falhasse, não pode ir mais além."

"Conheces tu essa ausência mais poderosa do que a presença?"

3 Busca de uma solução

"Surge sempre um desejo [no homem] de dobrar o destino à sua vontade, um desejo de fixar o significado ou o valor a seu próprio gosto..."

"A única ajuda adequada à reconhecida impotência existencial do homem, não pode ser senão o próprio divino"

"O homem sempre exprimiu, na sua história, a convicção de poder ser iluminado sobre o «totalmente outro» de si, sobre o Desconhecido, enquanto este se quer propriamente manifestar na realidade"

SIMBOLO / MITO "grandes instrumentos por excelência cognoscitivos e reveladores do mistério - «para o mundo arcaico o mito é real dado que narra as manifestações da verdadeira realidade: o sagrado"

etc.

"Ao aceitar a contradição, assim como a complexidade, tenho em vista a vitalidade, tanto quanto a validade"
Robert Venturi

Tudo é trágico

"Aprendi que não há diferença. Nenhuma diferença entre a comédia e a tragédia. O que se passa não é que uma coisa seja cómica e outra trágica. Tudo é trágico. Há pessoas que vêem tragicamente a vida, e compreendem a sua tragédia, e há outras que vêem a tragédia de uma forma tão ... trágica que, então, dizem piadas e riem-se, porque não sabem como lidar com isso de outra maneira. A alternativa seria matarem-se, mas não o fazem. A vida é trágica, para todos. Se virmos O Ladrão de Bicicletas [filme de Vittorio de Sica], ou O Sétimo Selo [de Ingmar Berngman], filmes trágicos sobre a vida, a morte, a tristeza, e, depois, formos ver um filme de Fred Astaire é maravilhoso, porque é uma forma de nos escaparmos. Mas são ambos trágicos: um é tragédia e explora isso dramaticamente e o outro tenta negar a tragédia e escapar-lhe, savendo que só o consegue por uns momentos. No fim de contas, tudo é trágico.

Mas de onde vem essa tragédia todas, nas nossas vidas?
"A tragédia vem da falta de sentido. Com os avanços da ciência, parece-me cada vez mais claro que tudo que existe está aqui por acaso. É tudo completamente aleatório, sem um sentido, sem uma razão, um objectivo. Nada tem sentido. Vivemos a nossa vida, morremos e, depois, nada restará. A longo prazo, tudo pode acabar: deixa de haver ar, existência, vida - não há mais beethoven, tudo o que nós julgamos que é imortal. Tudo isso vai desaparecer. Nada restará. Zero.
(...)
"«Toda a gente sabe a mesma verdade sobre a vida; e as nossas vidas consistem em escolher maneiras diferentes de distorcermos essa verdade.»
(...)
"É muito importante continuarmos a enganar-nos a nós próprios. Temos as nossas estratégias: distraímo-nos com uma relação amorosa, distraímo-nos a ver televisão... Qualquer coisa que nos impeça de pensarmos em que situação estamos metidos. E inventamos problemas triviais para nos entretermos (...) Coisas muito dolorosas para nós mas que, afinal, não são comparáveis ao verdadeiro terror com que toda a gente lida, ao longo das suas vidas."
Woody Allen in Visão nº 616, 23 dezembro 2004, pp. 105-109