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quinta-feira, junho 10, 2010

Redação 4ª classe


Disserte numa composição clara e cuidada sob o tema

“O que pode acontecer em 6 meses.” ( máximo 10 linhas) - 25 pontos



O que pode acontecer em 6 meses Por Fartura Doce.

6 meses é metade de um ano. Em 6 meses pode acontecer muita coisa, e não darmos conta disso assoberbados pela pressão do dia a dia. Em 6 meses pode nascer um bebe, e ainda assim não o conhecermos, podemos mudar radicalmente toda a vida e não nos apercebermos. Em 6 meses os nossos melhores amigos podem ficar noivos, mudarem radicalmente de vida e irem morar para longe. MAS também podem morar ao nosso lado e não os vermos nem por um isntante para jantar... Em 6 meses pode começar uma crise (o meu pai diz que o nosso PM disse na televisão que bastam 3 semanas...) podem falir bancos, falhar revoluções, começar novas no seu lugar em 6 meses podemos re-definir a nossa vida, re-inventarmo-nos e deixar todas as filosofias baratas e voltar a ser aqueles q sempre fomos...

Em 6 meses podemos trabalhar como loucos e não se recompensados... mas também podemos ficar ricos e descobrir como fabricar vida num laboratório.. ou teorizar vida no nosso sistema solar..., podemos descobrir lojas novas que vendem gelado, de um sabor que nunca imaginamos.. mas também podemos descobrir que o nosso restaurante favorito fechou... podemos fazer novos amigos... discutir com alguns mais velhos... o que não podemos é...

terça-feira, dezembro 16, 2008

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces 
Estendendo-me os braços, e seguros 
De que seria bom que eu os ouvisse 
Quando me dizem: "vem por aqui!" 
Eu olho-os com olhos lassos, 
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) 
E cruzo os braços, 
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta: 
Criar desumanidade! 
Não acompanhar ninguém. 
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade 
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde 
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde 
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos, 
Redemoinhar aos ventos, 
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, 
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi 
Só para desflorar florestas virgens, 
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! 
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós 
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem 
Para eu derrubar os meus obstáculos?... 
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, 
E vós amais o que é fácil! 
Eu amo o Longe e a Miragem, 
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas, 
Tendes jardins, tendes canteiros, 
Tendes pátria, tendes tectos, 
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... 
Eu tenho a minha Loucura ! 
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, 
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém. 
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; 
Mas eu, que nunca principio nem acabo, 
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! 
Ninguém me peça definições! 
Ninguém me diga: "vem por aqui"! 
A minha vida é um vendaval que se soltou. 
É uma onda que se alevantou. 
É um átomo a mais que se animou... 
Não sei por onde vou, 
Não sei para onde vou 
- Sei que não vou por aí!

José Régio


segunda-feira, setembro 03, 2007

mil macacos não escrevem shakespeare

Evitando uma boa gargalhada
Nem consigo uma rima desemparelhada
não sei rimar
para quê continuar.

gostaria tanto
de o vocabulário saber
para sem o maior espanto
dizer o que me apetecer

dos meus pares aprecio imenso
o seu tão eloquente discurso
mas quando por aí incurso
tudo me sai demasiado tenso

sente-se na escrita
sente-se na oralidade
na falta de ingenuidade
sobra-me a mentira proscrita

porquê a falta de talento?
porquê o nítido tormento?
para apenas umas linhas pintar
e assim a minha memória gravar

para num pedaço branco
tornar o meu coração franco
e, suspeito, declarar
o meu pecado de amar

(ai que nojento
este gosto pela pieguice
confesso-me desse mal isento
é pura patetice)

Nada de novo no céu, azul
ponto cardeal, sul
norte este oeste
excepto, imagine-se! que a nordeste

desbota uma musa, onde
da ciência da palavra disponde
e até ensina a escrever poemas
a quem só sabe resolver problemas

assim, um analfabeto sem gosto
uma rima escreveu
mas apesar de transposto
ele nada enterneceu.

resta-me a lágrima
por ainda não estar pronto
para chegar a uma obra-prima
espera-me um confronto

com ambiguidade e infortúnio
desbotando interpretações erradas
espero até ao plenilúnio
para redigir palavras amadas

oh sim oh mais,
que tudo é demais
o infindável cansaço aos dois chegamos
chega-te a mim, que nos aconchegamos

um longo porvir nos espera
uma longa caminhada nos tempera
o juízo, que sempre na bamba
corre perigo da descamba

para onde vamos?
por onde iremos?
o que aprenderemos?
que nos amamos?

continua...

quinta-feira, agosto 30, 2007

transmutação dos seres

ema.
ema.
ema.
em. a.
em. a.
e. ma.
em.
a. e.
e!
A. e. ma.
A e. ma.
A!
A!
e. E.
ma. em.
ma. E!
ma.
E!
E!
ma.
ma. e.
m. ae.
ma.
ma. e.
mae.
mae.
mae.
mae.

domingo, julho 17, 2005

GNOMA

[Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]


Dá-me mais quero mais
Desse vinho bem forte
Acre sol estival
De uma vida em desnorte
Já perdi o que tinha
A família a consorte
Para ser mero pó
Falta só vir a morte a morte


Tem calma irmão
Que a morte está aí para todos nós
E à parte as mães
Ninguém pode afirmar de viva voz
Que deixa cá algo
Quando a vida nos solta enfim os nós


Serve então mais um copo
Uma noite a beber
Não fará mal pior
E dará p’ra esquecer
O vazio que me ataca
Esta dor de viver
A feroz solidão
Que me faz q’rer morrer morrer


Tem calma irmão
Que a morte não precisa do teu sim
É coisa certa
Mais vale fazer da vida um festim
Canta antes dança
Que a vida não te surja mais ruim

Cantar eu?

Dançar dizes tu...

Serve então mais um copo para ajudar


Tem calma irmão
Que a morte não precisa ser assim
Canta e vais ver
Que a vida não te larga mais por fim....

sábado, abril 30, 2005

Poema: dos bons

Desculpem-me esta enxurrada, mas tenho montes de porcaria na minha cabeça e isto tem de ir para algum lado, e o melhor caixote que encontro é este!!

William Buttler Yeats (1865–1939)

He Wishes For the Cloths of Heaven

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

segunda-feira, abril 04, 2005

E a apatia do sono ganha terreno

“Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro”


E agora? Sou suposto conseguir” igualar a capacidade profética” da poesia dos mind da gap? Sou suposto escrever na forma de verso um sentimento que não tem conteúdo? Sou suposto alguma coisa?? Será que alguém verdadeiramente espera algo novo de outra pessoa? Ainda existe esperança na versão moderna da cinderela? E mais importante q tudo.. será isso de alguma importância?

Tudo já foi sentido, escrito, vivido... se não por mim por outra pessoa com igual importância… afinal as pessoas só tem a importância que as outras lhe derem…”hoje estou vencido como se não existisse um ontem e o futuro fosse uma realidade demasiado distorcida pela distância” hoje estou vencido por uma apatia que me empurra para um sono que (espero!) será sem sonhos… não sinto nem vontade nem desejo... apenas indiferença… cansado de lutar contra moinhos de vento e com pouca vontade de enfrentar um mundo com tantos truques que me obriga a ser injusto… - sou demasiado sério... odeio injustiças - construí uma personagem que me envolve, um ser superior e indiferente.. um ser que é injusto sempre que pode.. Maldoso sexista porco e sempre q possível desconfiado… que toda a gente parece adorar mas que desprezo profundamente não por não ser eu… mas por ser o oposto do eu q sou e reflectir o eu que querem q seja… por ser o resultado cabal da fraqueza de espírito… odeio pq é forte e eu fraco.. odeio pq sou eu e ao mesmo tempo não o sou..… e tal como o actor que no meio da peça esqueceu o seu papel a pele interligou-se e esqueci como tirar a mascara… estou condenado a viver comigo próprio sobre esta mascara opaca que me transtorna a realidade e a transforma num reality show demasiado pimba e burlesco…


Chego a casa a assimilo sem pensar, saio e concordo com absurdos q insultam a inteligência que ainda me resta… vivemos no tempo do instante presente… nada mais importa se não o instante.. a vida é uma longa pedrada.. sim o sentimento será qq coisa semelhante a isso… o estarmos presente, mas vermos a situação de outro ângulo, como se estivéssemos dentro de outra cabeça, de outro corpo de outro universo… uma espécie de apatia que desafia a realidade instalada e como tal a apatia instalada… é isso… falta-me o álcool a correr nas veias… a adrenalina já ñ chega… tragam os palhaços os acrobatas e os mágicos… a revolução vai ser novamente adiada por falta de revolucionários sóbrios.

sábado, abril 02, 2005

crepúsculo

The Hollow Men

I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us -- if at all -- not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

II

Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer --

Not that final meeting
In the twilight kingdom

III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death's other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death's twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

V


Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o'clock in the morning.


Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow


For Thine is the Kingdom


Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow


Life is very long


Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom


For Thine is
Life is
For Thine is the


This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.


T.S. Elliot

PS: Para quem tiver dúvidas no inglês, www.dictionary.com

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Encostei-me

Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos ---
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.


Álvaro de Campos

quinta-feira, dezembro 02, 2004

tabacaria

Não sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,E não tivesse mais irmandade com as coisasSenão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitadaDe dentro da minha cabeça,E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.Estou hoje dividido entre a lealdade que devoÀ Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.A aprendizagem que me deram,Desci dela pela janela das traseiras da casa.Fui até ao campo com grandes propósitos.Mas lá encontrei só ervas e árvores,E quando havia gente era igual à outra.Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!Gênio? Neste momentoCem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,E a história não marcará, quem sabe?, nem um,Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.Não, não creio em mim.Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundoNão estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,E quem sabe se realizáveis,Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?O mundo é para quem nasce para o conquistarE não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,Ainda que não more nela;Serei sempre o que não nasceu para isso;Serei sempre só o que tinha qualidades;Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,E ouviu a voz de Deus num poço tapado.Crer em mim? Não, nem em nada.Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardenteO seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.Escravos cardíacos das estrelas,Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;Mas acordamos e ele é opaco,Levantamo-nos e ele é alheio,Saímos de casa e ele é a terra inteira,Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;Come chocolates!Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.Come, pequena suja, come!Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca sereiA caligrafia rápida destes versos,Pórtico partido para o Impossível.Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,Nobre ao menos no gesto largo com que atiroA roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!Meu coração é um balde despejado.Como os que invocam espíritos invocam espíritos invocoA mim mesmo e não encontro nada.Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,Vejo os cães que também existem,E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o raboE que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soubeE o que podia fazer de mim não o fiz.O dominó que vesti era errado.Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.Quando quis tirar a máscara,Estava pegada à cara.Quando a tirei e me vi ao espelho,Já tinha envelhecido.Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.Deitei fora a máscara e dormi no vestiárioComo um cão tolerado pela gerênciaPor ser inofensivoE vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,Calcando aos pés a consciência de estar existindo,Como um tapete em que um bêbado tropeçaOu um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltadaE com o desconforto da alma mal-entendendo.Ele morrerá e eu morrerei.Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,E a língua em que foram escritos os versos.Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como genteContinuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,Sempre uma coisa tão inútil como a outra,Sempre o impossível tão estúpido como o real,Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.Semiergo-me enérgico, convencido, humano,E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-losE saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.Sigo o fumo como uma rota própria,E gozo, num momento sensitivo e competente,A libertação de todas as especulaçõesE a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeiraE continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universoReconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.Álvaro de Campos, 15-1-1928

segunda-feira, setembro 27, 2004

Um pouco de Arte...

Arq. Pedro Janeiro, Assistente Estagiário da FA.UTL

"Lembro-me muito bem daquela criança de bibe riscado. Pintou no primeiro dia o céu de escarlate. Encarnado vivo. Sagrado.
"A criação artística é propícia, mais do que em qualquer outra actividade, à revelação do Sagrado no gesto do Homem no Mundo. O Gesto incompreensível dá lugar à vida. Forma que nos salva do nada. Ex Nihilo.
"É sempre um acto renovado olhar e ver a cor do Poente.
"A criação artística distingue-se da produção, do trabalho e da técnica. Não da vida. Pertinência e Unidade que sublinha o limite da razão. Ratio. Cálculo. Conta.
"O coração que nos confirma a presença e supera a contradição entre os sentidos e a razão. O Gesto possibilita a fuga possível do Vazio primordial. Caos renascido a cada passo que simboliza a derrota do espírito humano perante o mistério da Existência.
"Esse Vazio, a que Braque chamou perturbação, antecede o Gesto, como Noun antecede o nascimento de Ra, deus que é maior e mais poderoso que o seu próprio criador.
"A impressividade do Caos, personificação e memória do Vazio primordial, incita o drama e a dor do Gesto que ordena os elementos do Espírito.
"Como dizer na tela as palavras mais amadas apaixonadamente?
"Pelo Gesto o artista chama à existência a Forma e partilha com o Divino o seu poder criador.
"Meu céu azul Encarnado vivo."

Aconselhável a leitura apenas após algumas jolas dentro da bolsa estomacal, condição sine qua non para o reconhecimento de sentido do texto...